Se tivesse que seleccionar o acontecimento político deste verão, seria certamente o da deportação de ciganos para o Kosovo, a Roménia e a Bulgária. Tudo começou pianinho, em Abril, quando o governo alemão impôs ao seu protectorado kosovar um acordo para o acolhimento de 14 mil ciganos.
A pequena localidade de Tiquipaya, em Cochabamba, Bolívia, juntou esta semana mais de 40 mil pessoas numa nobre cruzada para salvar a existência do nosso planeta. Entre elas estavam cinco Chefes de Estado, dois laureados com o Nobel de Paz, representantes de 181 Estados, activistas, cientistas e alguns poucos jornalistas, especialmente dos média sul-americanos. Será que o mundo ocidental se esqueceu de colocar este “pequeno” evento nas agendas de trabalho e da comunicação social?
Da Conferência "O clima farto de nós?", Lisboa, Março de 2010
Fotografia de Paulete de Matos
"Não podemos melhorar o mundo se não o salvarmos, mas podemos salvar o mundo melhorando-o", Lothar Bisky
Por Helena Carvalho e Nelson Peralta
As comunicações e os debates de sábado na conferência "O Clima farto de nós?" proporcionaram abundantes fontes de informação sobre não apenas o estado actual das alterações climáticas mas também das reflexões e investigações que estão a ser feitas para as combater. "O clima não espera pelo socialismo", lembrou Miguel Portas defendendo acções amplas, coordenadas e corajosas nas quais a Esquerda deve assumir um papel determinante para que as mudanças fundamentais à salvação do planeta promovam a justiça social e combatam as desigualdades. Por isso, Lothar Bisky recordou o enorme desafio que será a próxima Cimeira dos Povos em Cochabamba para que os movimentos sociais e de esquerda invertam as tendências negativas como elas se reflectiram em Copenhaga e, provavelmente, continuarão a reflectir-se em Cancun.
As alterações climáticas, a poluição, o aquecimento global, as formas de os combater de modo humanista e capaz de salvar o planeta são temas políticos de flagrante actualidade. Esta uma das mensagens fundamentais de "O Clima farto de nós?", iniciativa que o Bloco de Esquerda está a promover este fim de semana em Lisboa. Ao contrário das teses neoliberais que depois proporcionam fracassos como o da Cimeira de Copenhaga, discutir a preservação da Terra é uma questão política, não cabe na amálgama tecnocrática, faz-se com fronteiras bem definidas entre a Esquerda e a Direita, entre o humanismo e o negócio, entre a defesa da vida humana e o lucro. Até prova em contrário, o clima está realmente farto de nós; cabe-nos fazer as pazes com o clima e colocar o assunto na agenda política no capítulo das prioridades absolutas. Associar-se a esta acção do Bloco em Lisboa é uma boa ideia e um acto de cidadania.
O clima está a mudar - é uma realidade dos nossos dias. Nas últimas horas, por exemplo, chegaram sinais de alarme das Mongólia, onde o modo de vida pastoril, sobrevivência de uma nação, está ameaçado pelo aquecimento global. O que fazer quando os problemas climáticos se fazem sentir já em todo o planeta, dos Pólos ao Equador? Durante o fim de semana, em Lisboa, especialistas de várias áreas sociais e científicas e de diferentes partes do mundo avaliaram o problema, propuseram acções, defenderam soluções. Mais uma vez se apurou que o debate é político e que as questões climáticas e ambientais prosseguirão por caminhos desastrosos e irreversíveis caso continuem a ser guiadas pela tecnocracia neoliberal que ditou fracassos como o de Copenhaga.
À beira da histórica Cimeira dos Povos em Cochambamba, na Bolívia, e prevendo-se novos impasses em mais uma cimeira da ONU, desta feita em Cancun, no México, o Bloco de Esquerda e a Esquerda Europeia deixaram o seu contributo para um debate e uma acção sobre um tema que, ao contrário da tese de Obama, tem Esquerda e Direita, tem barricadas para definir os campos desta batalha política.